Discussão sobre os textos da mesa 4 do ELAM

Provavelmente muitos estudantes de Ciência da Informação sentem dificuldade em escrever algo sobre os textos publicados pela mesa 4 do Encontro Latino Americano de Mulheres (ELAM), que tinha o tema “Acesso à informação, sustentabilidade e relações de gênero” (veja aqui o post no blog do prof. André Lopez). Talvez a abordagem da autora Carolina Stanisci quando sugeriu “tratar a informação complexa de forma mais simples” (Stanisci, 2012) tenha sido o que chamou mais atenção para um leitor que tenha sentido uma falta de estímulo ou para um estudante da Ciência da Informação que não tenha encontrado especificamente o seu assunto de interesse nos demais textos publicados. Todos os textos, incluindo de autoria do prof. André Porto Ancona Lopez e Darcilene Sena Rezende, possuem um aspecto bastante social, o que não é surpresa alguma para os que estudam uma pós-graduação classificada academicamente como parte da área de conhecimento das Ciências Sociais.

Entretanto existe uma discussão sobre essa classificação. Alguns autores conhecidos no campo da Biblioteconomia e Arquivologia propõe-se a discutir os termos Informação e Ciência da Informação com uma abordagem voltada para uma necessidade social (WERSIG; NEVELING, 1975). Porém, outros autores se preocupam com elementos mais fundamentais nessa discussão como a importância do conceito de informação. O professor de Ciência da Informação na Escola de Ciência da Informação, Comunicação e Estudos Bibliotecários da Rutgers University, Nicholas . J. Belkin, por exemplo, cita alguns autores que questionam a dificuldade de se formular um conceito devido aos diferentes contextos em que o termo é utilizado (BELKIN, 1978). De acordo com este autor, alguns defendem uma definição voltada para a ciência clássica e outros possuem diferentes pontos de vista sobre o conceito. Belkin conclui que cada autor possui argumentos incompletos e orientados a um propósito específico.

A discussão sobre o conceito fundamental do que é a informação prevalece entre os autores da Ciência da Informação (FLORIDI, 2004). Alguns dos problemas elencados pelo filósofo italiano Luciano Floridi em 2004 sobre a Informação são particularmente observados considerando a possibilidade da natureza da Informação estar no nível ontológico. A autora Marcia Bates (1999) também apresenta três grandes questões na Ciência da Informação: uma Questão Física (Quais as características e leis do universo da informação?), uma Questão Social (Como as pessoas relacionam, buscam e usam a informação?) e uma Questão Estrutural (Como o acesso à informação pode ser mais rápido e eficaz?).

A abordagem desses últimos autores em buscar conceitos fundamentais importantes para o progresso dessa Ciência demonstra uma preocupação mais abrangente entre os pesquisadores. Essa abrangência pode ser justificada devido à “natureza interdisciplinar” da Ciência da Informação observada pelo engenheiro e Cientista da Informação Tefko Saracevic, pois os problemas relacionados com a Informação não poderiam ser abordados dentro de uma única área da atividade científica (SARACEVIC, 1996).

Na Universidade de Brasília (UnB), a Arquitetura da Informação é um campo de estudo inserido na Ciência da Informação que busca algumas questões fundamentais. Este campo de estudo foi inserido posteriormente à criação do curso de Pós-Graduação em Ciência da Informação e foi incluído na linha de pesquisa da Organização da Informação. Alguns docentes observam a Pós-Graduação em Ciência da Informação como um curso que veio da Biblioteconomia e Arquivologia. Já os pesquisadores da Arquitetura da Informação argumentam que a Ciência da Informação é uma área de pesquisa mais ampla, assim como os últimos autores descritos anteriormente. Essa postura aparentemente também provoca uma discussão entre os docentes da UnB: a Arquitetura da Informação (AI) faz ou não parte da Faculdade de Ciências da Informação (FCI) da UnB?

Os argumentos de quem sugere que a AI não deveria fazer parte da FCI normalmente envolve o surgimento do curso a partir da biblioteconomia e arquivologia como descrito anteriormente, mas talvez o argumento mais forte esteja nos textos de autores renomados que descrevem o início da Ciência da Informação a partir de uma “explosão” de artigos e documentos científicos na década de 60 que levou aos documentalistas e bibliotecários a estudar uma nova Ciência para suprir essa demanda. O psicólogo e cientista da informação Harold Borko, por exemplo, descreve a situação encontrada na época, onde o Instituto de Documentação Americana mudou seu nome para Sociedade Americana para Ciência da Informação.

Por outro lado, os que sugerem que a AI deve fazer parte da FCI observam questões mais elementares que emergem do objeto de estudo desta Ciência: a Informação. Os argumentos são baseados em autores também renomados que exploram essa característica interdisciplinar. Os 18 problemas elementares sobre o conceito de informação apontados pelo Floridi (2004) e que foram revisados recentemente pelo psicólogo, cientista político e cientista da informação Wolfgang Hofkirchner (2011) são exemplos dessas questões que preocupam esses pesquisadores. A Teoria Unificada da Informação proposta por Hofkirchner (1999) aponta uma necessidade de integrar todas as teorias que buscam o conceito de informação em um único conceito genérico de informação.

A Arquitetura da Informação parece estar alinhada com o estudo das questões mais elementares desta área do conhecimento, pois busca a definição da Informação em sua essência. Porém, isso não significa que o aspecto social não esteja inserido no contexto da Arquitetura da Informação. Existem diversos trabalhos que buscam melhorar o entendimento humano sobre certos aspectos que poderiam estar associados a um problema social. Pensando-se em um contexto mais limitado a uma organização, por exemplo, poder-se-ia sugerir um estudo sobre o entendimento de analistas de requisitos em relação ao gestor da informação. Ou ainda poder-se-ia abordar toda uma Organização da Informação nesta Organização através de uma metodologia baseada na Arquitetura da Informação. Alguns frutos já foram criados a partir desta perspectiva, como o método MAIA proposto pelo analista de sistemas e cientista da informação Ismael Costa (2009) em sua dissertação de mestrado.

Minha conclusão a partir desta perspectiva é que a questão social parece estar ligada a uma consequência de um estudo baseado na Arquitetura da Informação, mas não parece ser o foco ou o objetivo principal. Isso não impede que a Arquitetura da Informação esteja fora de um contexto de Ciência da Informação, mas não se identifica com características de uma Ciência Social. Em meu projeto, por exemplo, eu trato de questões filosóficas sobre a essência do que se trata a informação utilizando uma Ciência Natural. A consequência (bastante a posteriori) desse estudo talvez seja algo voltado para tecnologia, sugerindo-se então que esta pesquisa possa se identificar com as palavras do texto do prof. André Lopez e da Darcilene Rezende:

Hoje, o acesso à informação relaciona-se à exploração das potencialidades dadas pelas novas tecnologias e meios de comunicação (TICs) e seu uso, com vistas à democratização do conhecimento, em uma perspectiva transformadora da sociedade, buscando a redução das desigualdades. (LOPEZ, 2012)

REFERÊNCIAS:

BATES, M. J. The invisible substrate of information science. Journal of the American Society for Information Science, v. 50, n. 12, p. 1043–1050, October 1999.

BELKIN, N. J. Information concepts for information science. Journal of Documentation, v. 34, n. 1, p. 55-85, mar. 1978.

BORKO, H. Information science: what is it?. American Documentation. v. 19, n.1, p. 3-5, 1968.

COSTA, I. de M. Um método para arquitetura da informação: fenomenologia como base para o desenvolvimento de arquiteturas da informação aplicadas. Brasília, DF: FCI, 2009. Originalmente apresentada como dissertação de mestrado, Universidade de Brasília, 2009.

FLORIDI, L. Open problems in the philosophy of information. Metaphilosophy, v. 35, n. 3, april 2004. LE COADIC, Y. F. A Ciência da informação. 2a ed. Brasília: Briquet de Lemos, 2004.

HOFKIRCHNER, W. (Ed.). The quest for a unified theory of information, v. 13 [de] World futures general evolution studies. Viena, Austria: Gordon and Breach Publishers, 1999.

HOFKIRCHNER, W.; CRNKOVIC. Floridi’s “open problems in philosophy of information”, ten years later, v. 13 [de] World futures general evolution studies. Viena, Austria: Gordon and Breach Publishers, 2011.

LOPEZ, A. ELAM – mesa 04. In: LOPEZ, A. Metodologia em Ciência da Informação. Brasília, 2012. Disponível em: <http://metodologiaci.blogspot.com.br/p/elam-mesa-04.html>. Acesso em 16 jun. 2012.

SARACEVIC, T. Ciência da Informação: origem, evolução e relações. Perspectivas em Ciência da Informação, Belo Horizonte, v. 1, n. 1, p. 4-62, jan./jun. 1996.

Stanisci, C. Descomplicar. In: LOPEZ, A. Metodologia em Ciência da Informação. Brasília, 2012. Disponível em: <http://metodologiaci.blogspot.com.br/p/elam-mesa-04.html>. Acesso em 16 jun. 2012.

WERSIG, G.; NEVELING, U. The phenomena of interesting to information science. Information Scientist, v.9, n.4, p. 127-140, Dec. 1975.

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