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Artigos inspirados nas aulas de Metodologia em Ciência da Informação, no período 2012-1 do Mestrado em CI.

Antes e depois da disciplina de Metodologia da CI

Método Científico

Copiado de Wikipedia.

Foi relativamente difícil criar uma proposta para ingressar no curso de Mestrado em Ciências da Informação da Universidade de Brasília (UnB). Tive que voltar a estudar por conta própria Metodologia de Pesquisa Científica, mas, a princípio, apenas me detive no formato de apresentação da proposta de pesquisa. Na época fiquei relativamente orgulhoso pelo resultado que me permitiu o ingresso na Faculdade de Ciência da Informação como aluno regular. Porém, após as primeiras aulas na disciplina de Metodologia da CI com a prof.ª Sofia e o prof. André Lopez eu percebi que não estava mais tão orgulhoso assim. Aliás, um comentário bastante comum entre os alunos que também tinham feito a proposta de pesquisa sem ter feito esta disciplina era que não entendia como não enxergava antes tantos problemas no projeto.

A prof.ª Dra Sofia Galvão Baptista e o prof. Dr. André Porto Ancona Lopez apresentou uma proposta diferente para a didática da disciplina de Metodologia em Ciência da Informação: uma construção de uma proposta de dissertação, promovido pela orientação da prof.ª Sofia na primeira parte do curso, e uma desconstrução provocada pelo prof. André na segunda parte. Posteriormente percebemos que essa desconstrução foi gerada pelas nossas próprias reflexões sobre nosso projeto, que possuía brechas ainda imperceptíveis em nossa primeira visão imatura.

A primeira parte do curso com a prof.ª Sofia apresentou conceitos fundamentais para a construção inicial de um projeto de pesquisa de mestrado. Esses conceitos resultaram em uma melhor percepção do ponto central do problema através da construção de uma pergunta que norteia a minha pesquisa (ver Pergunta Principal). O problema que é estudado e a justificativa da proposta também foram melhor formulados com uma visão a dar uma contribuição à Ciência da Informação. As contribuições obtidas nessa primeira parte do curso levaram até a uma ligeira mudança nos objetivos específicos da pesquisa.

Enfim, essa primeira parte do curso ajudou a estruturar o projeto de pesquisa, o que resultou nas informações apresentadas em área específica deste blog.

A partir da segunda parte do curso de Metodologia da CI, o prof. André Lopez utilizou recursos como vídeos e blogs e alinhou a uma dinâmica de tarefas que favorecia o debate. Nessas tarefas, o conhecimento do trabalho de pesquisa dos demais alunos era fundamental. Isso sem falar no pulso forte no que diz respeito a atenção as especificações de cada tarefa. Isso desperta os alunos para trabalhar o mau costume da falta de organização que normalmente leva à entrega de trabalhos incompletos e/ou fora do prazo. Com uma turma bastante heterogênea, foi natural abordar questões que até então não fazíamos em nosso projeto. Isso levou àquela desconstrução prometida inicialmente na apresentação do curso.

Acredito que a utilização de blogs na dinâmica de aula tenha sido a inovação que mais contribuiu para uma mudança na minha própria metodologia de estudos. O ato de escrever um pouco a cada dia (mesmo em uma linguagem natural, que é diferente da escrita em textos científicos) sobre textos variados e sobre o nosso projeto e a contribuição provocada pelos debates entre os alunos da turma derivou respectivamente na criação deste blog e no aperfeiçoamento da minha proposta de pesquisa para a dissertação de mestrado.

A disciplina de Metodologia em Ciência da Informação mostra-se como uma disciplina fundamental para a realização de qualquer pesquisa proposta na Faculdade de Ciências da Informação da UnB. Entretanto, as dinâmicas apresentadas neste curso foram essenciais para uma melhoria substancial na forma de como fazer ciência. Utiliza-se a construção conjunta e a contribuição de pessoas distintas com participações ativas através de um debate construtivo. Com isso, não é só o pesquisador que ganha; todos ganham!

Por que fazemos ciência?

Ciência em rede

Copiado de Antena5.

Por coincidência — ou talvez por influência mesmo — minha percepção para responder a esta pergunta está bastante alinhada com Eduardo Tomanik em sua obra O Olhar no Espelho (2004). Confesso que não fiz uma pesquisa sistemática sobre o que é a ciência, mas, como todo estudante de mestrado, já li algumas obras sugeridas pelos professores. Por isso, minha opinião neste assunto pode estar sendo influenciada pelos autores que li. O interessante neste depoimento é que isso já que demonstra, a princípio, que a ciência funciona, uma vez que o estudante que se propõe a fazer ciência deve partir de um conjunto de descobertas comprovadas pela sua área de interesse para dar sua contribuição, aumentando assim o conjunto de descobertas desta ciência. Mas já estou me precipitando.

Percebo que precisamos da ciência por vários fatores. Em primeiro lugar precisamos dela para entender a realidade em que vivemos. Mesmo sem ser especialista em todas as Ciências, no nosso cotidiano lidamos com elas. Utilizamos as Ciências Naturais ao fazer cálculos, ao utilizar um transporte, ao tomar um medicamento indicado por um médico, ao ler este texto no computador ou ao imprimí-lo. Utilizamos também as Ciências Sociais e Humanas ao estudar a cultura de uma sociedade,  ao questionar a nossa história, ao entender o funcionamento de uma empresa ou o comportamento de um indivíduo. Ou seja, mesmo sem ser cientista qualquer indivíduo utiliza o conhecimento que foi produzido pela ciência.

Além disso, como podemos ver, a ciência também é necessária para fazer ciência. “O próprio avanço das ciências e das tecnologias contribui para abrir novos campos e formas de pesquisas” (TOMANIK, 2004). As diferentes formas de se fazer a pesquisa nas Ciências Sociais também possibilitam novos rumos para os estudos que envolvem o homem (TOMANIK, 2004).

Precisamos também da ciência como um meio comum para a validação das descobertas feitas pelos pesquisadores. Os questionamentos e debates realizados entre os cientistas contribuem para o aperfeiçoamento de uma ideia. A aceitação de uma descoberta realizada por um pesquisador é feita através da comprovação de uma tese ou pelo simples convencimento de suas afirmações. Neste caso, o aceite destas afirmações significa que as ideias propostas resolvem um conjunto de problemas observados por esta Ciência.

Observamos então a ciência como uma espécie de “acordo” entre os pesquisadores, onde delimita-se os problemas que serão estudados, utiliza-se um objeto de estudo que será observado e propõe-se um método para resolução desses problemas. Assim, a importância da utilização da ciência está na busca pela compreensão da realidade através de uma comunidade científica que registra o conhecimento científico em busca de um “conhecimento verdadeiro”.

Referências

TOMANIK, Eduardo. O olhar no espelho: “conversas” sobre a pesquisa em ciências sociais. 2. ed rev. Maringá: Eduem, 2004.

Discussão sobre os textos da mesa 4 do ELAM

Provavelmente muitos estudantes de Ciência da Informação sentem dificuldade em escrever algo sobre os textos publicados pela mesa 4 do Encontro Latino Americano de Mulheres (ELAM), que tinha o tema “Acesso à informação, sustentabilidade e relações de gênero” (veja aqui o post no blog do prof. André Lopez). Talvez a abordagem da autora Carolina Stanisci quando sugeriu “tratar a informação complexa de forma mais simples” (Stanisci, 2012) tenha sido o que chamou mais atenção para um leitor que tenha sentido uma falta de estímulo ou para um estudante da Ciência da Informação que não tenha encontrado especificamente o seu assunto de interesse nos demais textos publicados. Todos os textos, incluindo de autoria do prof. André Porto Ancona Lopez e Darcilene Sena Rezende, possuem um aspecto bastante social, o que não é surpresa alguma para os que estudam uma pós-graduação classificada academicamente como parte da área de conhecimento das Ciências Sociais.

Entretanto existe uma discussão sobre essa classificação. Alguns autores conhecidos no campo da Biblioteconomia e Arquivologia propõe-se a discutir os termos Informação e Ciência da Informação com uma abordagem voltada para uma necessidade social (WERSIG; NEVELING, 1975). Porém, outros autores se preocupam com elementos mais fundamentais nessa discussão como a importância do conceito de informação. O professor de Ciência da Informação na Escola de Ciência da Informação, Comunicação e Estudos Bibliotecários da Rutgers University, Nicholas . J. Belkin, por exemplo, cita alguns autores que questionam a dificuldade de se formular um conceito devido aos diferentes contextos em que o termo é utilizado (BELKIN, 1978). De acordo com este autor, alguns defendem uma definição voltada para a ciência clássica e outros possuem diferentes pontos de vista sobre o conceito. Belkin conclui que cada autor possui argumentos incompletos e orientados a um propósito específico.

A discussão sobre o conceito fundamental do que é a informação prevalece entre os autores da Ciência da Informação (FLORIDI, 2004). Alguns dos problemas elencados pelo filósofo italiano Luciano Floridi em 2004 sobre a Informação são particularmente observados considerando a possibilidade da natureza da Informação estar no nível ontológico. A autora Marcia Bates (1999) também apresenta três grandes questões na Ciência da Informação: uma Questão Física (Quais as características e leis do universo da informação?), uma Questão Social (Como as pessoas relacionam, buscam e usam a informação?) e uma Questão Estrutural (Como o acesso à informação pode ser mais rápido e eficaz?).

A abordagem desses últimos autores em buscar conceitos fundamentais importantes para o progresso dessa Ciência demonstra uma preocupação mais abrangente entre os pesquisadores. Essa abrangência pode ser justificada devido à “natureza interdisciplinar” da Ciência da Informação observada pelo engenheiro e Cientista da Informação Tefko Saracevic, pois os problemas relacionados com a Informação não poderiam ser abordados dentro de uma única área da atividade científica (SARACEVIC, 1996).

Na Universidade de Brasília (UnB), a Arquitetura da Informação é um campo de estudo inserido na Ciência da Informação que busca algumas questões fundamentais. Este campo de estudo foi inserido posteriormente à criação do curso de Pós-Graduação em Ciência da Informação e foi incluído na linha de pesquisa da Organização da Informação. Alguns docentes observam a Pós-Graduação em Ciência da Informação como um curso que veio da Biblioteconomia e Arquivologia. Já os pesquisadores da Arquitetura da Informação argumentam que a Ciência da Informação é uma área de pesquisa mais ampla, assim como os últimos autores descritos anteriormente. Essa postura aparentemente também provoca uma discussão entre os docentes da UnB: a Arquitetura da Informação (AI) faz ou não parte da Faculdade de Ciências da Informação (FCI) da UnB?

Os argumentos de quem sugere que a AI não deveria fazer parte da FCI normalmente envolve o surgimento do curso a partir da biblioteconomia e arquivologia como descrito anteriormente, mas talvez o argumento mais forte esteja nos textos de autores renomados que descrevem o início da Ciência da Informação a partir de uma “explosão” de artigos e documentos científicos na década de 60 que levou aos documentalistas e bibliotecários a estudar uma nova Ciência para suprir essa demanda. O psicólogo e cientista da informação Harold Borko, por exemplo, descreve a situação encontrada na época, onde o Instituto de Documentação Americana mudou seu nome para Sociedade Americana para Ciência da Informação.

Por outro lado, os que sugerem que a AI deve fazer parte da FCI observam questões mais elementares que emergem do objeto de estudo desta Ciência: a Informação. Os argumentos são baseados em autores também renomados que exploram essa característica interdisciplinar. Os 18 problemas elementares sobre o conceito de informação apontados pelo Floridi (2004) e que foram revisados recentemente pelo psicólogo, cientista político e cientista da informação Wolfgang Hofkirchner (2011) são exemplos dessas questões que preocupam esses pesquisadores. A Teoria Unificada da Informação proposta por Hofkirchner (1999) aponta uma necessidade de integrar todas as teorias que buscam o conceito de informação em um único conceito genérico de informação.

A Arquitetura da Informação parece estar alinhada com o estudo das questões mais elementares desta área do conhecimento, pois busca a definição da Informação em sua essência. Porém, isso não significa que o aspecto social não esteja inserido no contexto da Arquitetura da Informação. Existem diversos trabalhos que buscam melhorar o entendimento humano sobre certos aspectos que poderiam estar associados a um problema social. Pensando-se em um contexto mais limitado a uma organização, por exemplo, poder-se-ia sugerir um estudo sobre o entendimento de analistas de requisitos em relação ao gestor da informação. Ou ainda poder-se-ia abordar toda uma Organização da Informação nesta Organização através de uma metodologia baseada na Arquitetura da Informação. Alguns frutos já foram criados a partir desta perspectiva, como o método MAIA proposto pelo analista de sistemas e cientista da informação Ismael Costa (2009) em sua dissertação de mestrado.

Minha conclusão a partir desta perspectiva é que a questão social parece estar ligada a uma consequência de um estudo baseado na Arquitetura da Informação, mas não parece ser o foco ou o objetivo principal. Isso não impede que a Arquitetura da Informação esteja fora de um contexto de Ciência da Informação, mas não se identifica com características de uma Ciência Social. Em meu projeto, por exemplo, eu trato de questões filosóficas sobre a essência do que se trata a informação utilizando uma Ciência Natural. A consequência (bastante a posteriori) desse estudo talvez seja algo voltado para tecnologia, sugerindo-se então que esta pesquisa possa se identificar com as palavras do texto do prof. André Lopez e da Darcilene Rezende:

Hoje, o acesso à informação relaciona-se à exploração das potencialidades dadas pelas novas tecnologias e meios de comunicação (TICs) e seu uso, com vistas à democratização do conhecimento, em uma perspectiva transformadora da sociedade, buscando a redução das desigualdades. (LOPEZ, 2012)

REFERÊNCIAS:

BATES, M. J. The invisible substrate of information science. Journal of the American Society for Information Science, v. 50, n. 12, p. 1043–1050, October 1999.

BELKIN, N. J. Information concepts for information science. Journal of Documentation, v. 34, n. 1, p. 55-85, mar. 1978.

BORKO, H. Information science: what is it?. American Documentation. v. 19, n.1, p. 3-5, 1968.

COSTA, I. de M. Um método para arquitetura da informação: fenomenologia como base para o desenvolvimento de arquiteturas da informação aplicadas. Brasília, DF: FCI, 2009. Originalmente apresentada como dissertação de mestrado, Universidade de Brasília, 2009.

FLORIDI, L. Open problems in the philosophy of information. Metaphilosophy, v. 35, n. 3, april 2004. LE COADIC, Y. F. A Ciência da informação. 2a ed. Brasília: Briquet de Lemos, 2004.

HOFKIRCHNER, W. (Ed.). The quest for a unified theory of information, v. 13 [de] World futures general evolution studies. Viena, Austria: Gordon and Breach Publishers, 1999.

HOFKIRCHNER, W.; CRNKOVIC. Floridi’s “open problems in philosophy of information”, ten years later, v. 13 [de] World futures general evolution studies. Viena, Austria: Gordon and Breach Publishers, 2011.

LOPEZ, A. ELAM – mesa 04. In: LOPEZ, A. Metodologia em Ciência da Informação. Brasília, 2012. Disponível em: <http://metodologiaci.blogspot.com.br/p/elam-mesa-04.html>. Acesso em 16 jun. 2012.

SARACEVIC, T. Ciência da Informação: origem, evolução e relações. Perspectivas em Ciência da Informação, Belo Horizonte, v. 1, n. 1, p. 4-62, jan./jun. 1996.

Stanisci, C. Descomplicar. In: LOPEZ, A. Metodologia em Ciência da Informação. Brasília, 2012. Disponível em: <http://metodologiaci.blogspot.com.br/p/elam-mesa-04.html>. Acesso em 16 jun. 2012.

WERSIG, G.; NEVELING, U. The phenomena of interesting to information science. Information Scientist, v.9, n.4, p. 127-140, Dec. 1975.